Tenho vontade de fugir comigo...
Sim! Comigo mesmo!
Qual pai que tenta proteger o filho perdido em
tantos desencontros...
Num segundo e pronto!

Escutar-me em profundo desabafo!
Deixar-me chorar copiosamente...
Depois aninhar-me nos braços,
qual pai, o filho descrente!

Tenho vontade, juro que tenho,
de perder horas e horas comigo...
Esquecer um pouco das responsabilidades,
os tantos compromissos assumidos!

Tenho vontade, juro por Deus,
De abraçar-me com todo amor...
Cuidar de minhas rugas,
ser mais bético, cético, vaidoso...
Cuidar do meu exterior!

Tenho vontade, por tudo!
Proibir-me de cenas violentas...
Tal qual o pai cauteloso,
que na TV, a censura reinventa!

Tenho vontade de sorrir à fome,
da desgraça alheia!
Gargalhar da violência que pelas ruas
passeia...
Do mendigo queimado e sem nome!

Juro mesmo, tenho vontade
De encasular-me nos braços de mim mesmo...
Que se dane da vida, os mistérios!
Viver no mundinho que construí,
longe deste daqui, que me cobra ver o que não quero!

Tenho vontade e é preciso
De cegar-me as verdades que vejo...
As dores explícitas, ser mais calculista
no mundo em que vivo!

Tenho vontade e só tenho vontade
De esmurrar-me, tem horas...
Gritar: - Que se dane o mundo lá fora e
viver eu comigo!

Ainda mais, esmurrar-me sem demora,
o covarde que em mim aflora
O viver eu somente, infelizmente,
Não consigo!

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declamado por Anna Müller

 


 
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